Body Horror e os limites do humano no game Stasis: Bone Totem

Conheça o horror em Stasis

POST DO BLOG

Alan Narcizo

6/5/20266 min read

Se tem algo que me fascina além da literatura é o universo dos games, principalmente aqueles com temáticas de ficção científica ou horror. Sou alucinado por jogos com boas narrativas e/ou atmosferas marcantes. Sabe aquele game que você mergulha na história e fique pensando depois? Então, esses que me pegam.

Desde que comprei um notebook com placa de vídeo (ótima aquisição) experimentei diversos jogos, mas todos com temáticas parecidas: lovecraftiano, horror, ficção científica, alienígenas, etc. A lista de games não é muito grande, mas aqui estão alguns que me marcaram: Control (jogo com elementos New Weird), Dagon (inspirado no conto homônimo de Lovecraft), The Sinking City (também inspirado em Lovecraft), Conarium (de novo Lovecraft), Transient (mistura de cyberpunk e horror cósmico), The Shore (horror cósmico), Scorn (nem sei classificar esse, mas é bom demais), Death Strash, Legacy Of Kain: Soul Reaver (vampíros), Mortal Shell (fantasia sombria) e os mais recentes: Cayne e Stasis: Bone Totem, ambos deselvolvidos pela empresa Brotherhood.

Body horror é um subgênero do horror que se caracteriza por representar violações pertubadoras do corpo humano: mutilações, mutações, doenças, transformações grotescas que geram repulsa, medo, desconforto. Esse gênero já foi bem utililizado no cinema, como nos filmes: A Mosca, de David Cronenberg; O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter; e o recente A Substância, de Coralie Fargeat. Diferentemente de filmes de assombração, de assassinos ou monstros, o horror/terror do Body horror acontece no corpo. O medo pulsa de dentro para fora e não há escapatória. O que vemos no cinema é a materialização do medo de se transformar em outra coisa não-humana, o medo de perder a própria identidade.

Stasis: Bone Totem

Quero partilhar sobre esse game com vocês porque ele me proporcionou uma experiência estética fascinante.

Stasis: Bone Totem conta a história de um casal de marinheiros Mac e Charlie que estão com problemas financeiros. Eles vivem de recolher sucata e durante uma de suas buscas, eles descobrem uma plataforma “petrolífera” em meio ao oceano chamada DEEPSEA 15. A aventura começa quando eles decidem entrar no local à procura de “coisas de valor”. Além de descobrirem que a plataforma está abandonada, percebem um rastro de violência e destruição por toda parte: sangue, corpos, salas destruidas. À medida que avançam pelos corredores sombrios, descobrem os restos de estranhas operações e experimentos científicos. Logo descobrem que a megacorporação Cayne ( a grande antagonista do jogo) está por trás de tudo isso e, ao que tudo indica, estava realizando experimentos cruéis e moralmente duvidosos.

Os protagonistas avançam dentro da DEEPSEA 15 e descobrem um elevador que dá acesso a um vasto laboratório no fundo do mar chamado MULE. Ali acontecem as piores experiencias científicas que você possa imaginar. É lá que mora o body horror da história.

No universo de Stasis: Bone Totem, Cayne é uma empresa de biotecnologia que atua na terra e fora dela. Seus procedimentos antiéticos permanecem em segredo pois acontecem em distantes colônias no espaço ou nas profundezas do oceano. O jogo nos mostra que tais procedimentos ignoram completamente o valor da vida humana. E isso vai ficando evidente à medida que avançamos pelas salas com parafernalha científica e corredores sintéticos.

Durante o jogo, me deparei com diversas cenas de Body horror. Logo no início temos a presença de corpos estranhamente mutilados. E o mistério só aumenta…

À medida que a história avança, descobrimos mais e mais cadáveres deformados, mas o que mais me aterrorizou foram duas cenas específicas que apresento abaixo:

  1. O cérebro crucificado

Na cena acima, o personagem Mac adentra um laboratório e se depara como uma formação grotesca. Uma “torre” de pessoas que parece um experimento mal sucedido, formado por pernas, cabeça, braços, vísceras e muito sangue. E o pior? A “coisa” está viva e fala!!! Durante todo o tempo que o personagem permance na sala, a aglomeração de carne fica resmungando frases sem sentido como se fosse única entidade. Sabe o que mais me assombra nesse tipo de coisa? Imaginar que aquelas pessoas estão presas naquele estado por tempo indeterminado. É o puro suco do Body Horror. Escreva o seu texto aqui...

  1. A torre de gente

Nessa cena, o personagem Moisés testemunha o resultado de uma sórdida experiência. Ao olhar por uma pequena janela redonda de um laboratório, ele vê um corpo crucificado reduzido a ossos, sistema nervoso, coração e cérebro. Essa coisa que um dia foi um ser-humano permance ligada a diversos fios e canos misteriosos, provavelmente o aparato que a mantém viva. O body horror está na redução do humano em objeto de experiência. Trata-se de uma desumanização no sentido corporal. Não há mais corpo humano integral, há pedaços…e isso é horrendo.

Stasis: Bone Totem explora o body horror de diferentes maneiras. Há muitas mutilações, vísceras, amostras de experiências científicas, corpos contaminados. Os criadores do game foram criativos e souberam apresentar um cenário horrendo e misterioso. Eu poderia mostrar muitas coisas aqui, mas cometi o erro de não capturar as telas equanto jogava. Pois é.

O que posso fazer é apresentar mais algumas imagens que recolhi da página da Steam. Vamos lá:

Enfim, teria muita coisa para mostrar, mas acho que já deu para vocês terem uma noção de o quanto Stasis: Bone Totem se apropriou do subgênero do body horror para compor seu universo. Vale comentar que cada cena provocou efeitos diferentes: medo, repulsa, nojo, desconforto, curiosidade. E agente gosta de experimentar isso na ficção, não é mesmo?

Pra finalizar, quero comentar um último ponto. Na minha opinião, o jogo explora os limites do humano. Até onde a ciência pode ir sem ferir a ética? Até onde podemos ir em nome do avanço científico? Tudo é permitido? Stasis: Bone Totem nos apresenta uma corporação que não se preocupa com essas questões. Para Cayne tudo é permitido desde que seja em favor do lucro e da pesquisa. Então, vale explorar seus funcionários, vale manter cientístas insanos responsáveis por experimentos duvidosos, vale a morte. Vale tudo. Não há moral nem ética capazes de interromper os negócios da hipercapitalista Cayne.

A história da Cayne é revelada aos poucos no jogo, enquanto os personagens encontram PDAs (pequenos tablets) contendo o registro dos funcionários. Fica claro que a megacorporação opera nos limites da ciência, fazendo o que for necessário para alcançar seus objetivos.

O cinema e os games trazem exemplos de grandes corporações que, querendo ou não, foram responsáveis por catástrofes. Temos como exemplos a InGen, de Jurassic Park; a Umbrela Corporation, de Resident Evil; a Weyland-Yutani Corporation, da franquia Alien. Essas empresas têm em comum a ambição financeira e científica. Além disso, estão associadas a eventos trágicos envolvendo seus funcionários e/ou a humanidade.

Acho muito massa a influência de megacorporações fictícias na literatura e nos games. Pretendo escrever mais sobre isso, mas paro por aqui, pois o texto já esta enorme. Que viagem! Espero que tenham gostado do que escrevi. Aos interessados, o game está disponível na Steam. Valeu, gente!

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